O feriadão acaba

 

Para alguns, final de semana é praia. Para outros, é trabalho Tarde, quase noite. Na rodovia que conduz à felicidade do weekend, famílias e pretendentes à pegação reunem-se no apertado espaço de quatro faixas, três na serra, que é pouco para tanta necessidade de alegria. Tudo como sempre, congestionamentos, vendedores ambulantes, assaltos no trânsito e no pedágio. Mas isso não é tudo. Há exceções nas regras do “ser feliz”. No meio do caminho pode ter uma pedra, uma pessoa, um animal, ou mesmo outro veículo procurando a mesma diversão e correndo, todos correm o mesmo risco. Não basta disciplina: no leito carroçável é preciso sorte. Um dado: Morre mais gente em acidentes nas rodovias, do que soldados americanos no Iraque. A história a ser contada, não é uma guerra entre nações. Na minha guerra, aquele foi apenas um combate e minha função, era ajudar com os mortos e feridos e limpar a pista para os próximos. Assim era, para mim, um feriado prolongado. Hoje, mais de 4 anos longe do trabalho em rodovias, ainda é. Sentado na minha viatura com o relatório em branco nas mãos, a caneta falhava, os olhos não enxergavam os campos a preencher. No rascunho, por força do hábito mais do que por vontade, tudo. Marcas, modelos, quantidade de vítimas, danos anotados, nome e número do documento de testemunhas, prefixo das mais de 20 viaturas que estiveram no local. Era para tanto? Apenas dois veículos na colisão e um terceiro, que ficou atolado no canteiro central, quando desviou do acidente. A cinemática era assustadora. Não estava chovendo, o domingo havia sido agradável, quente, as pessoas que voltavam do litoral queimadas e ardendo de felicidade e cerveja, tiveram uma distração a mais para o gosto estranho que o ser humano tem de apreciar a desgraça alheia. Aquele acidente era um prato cheio, cheio de vítimas expostas, inclusive. Uma praça de guerra, depois da guerra. Bem na minha frente, no asfalto, um chinelinho rosa, caído, lembrava aquilo que eu mais queria esquecer: duas crianças estavam naquele acidente. Uma com cinco anos, outra com quase dez. Vítimas fatais. Os assassinos? O pai e a cervejinha, a necessidade de relaxar depois de uma semana estressante de muito trabalho, que era para dar uma vida melhor àquelas mesmas crianças. Paradoxal? É a sociedade que nos acostuma a coisas estranhas e más. Pano de fundo de tudo isso, a TV, as revistas, o mundo todo insistindo que cada um merece uma vida melhor. Todos os comerciais dizendo: compre, use, consuma tudo! Você precisa ter para ser. Fui o primeiro a chegar no local, seguido de perto pela viatura da polícia rodoviária. Por experiência, ou desespero, atravessei o canteiro central, no espaço de tela violentamente removida pelo veículo número um, um vectra, o causador da colisão. Um homem e duas crianças ocupavam este veículo. Só o homem voltou para casa, depois. Do outro lado da contenda, o veículo número dois, um Ford Ka, ocupado por três pessoas, um idoso dirigia, com uma jovem ao lado e, atrás, uma senhora de aproximadamente 50 anos, que voltou à vida na minha frente, com o trabalho incansável de dois resgatistas que receberam naquele dia, pelo menos por mim, o título máximo de admiração que pode ser dado a um ser humano, foram heróis. Tiraram aquela senhora das ferragens, ressuscitaram aquele corpo sem vida com procedimentos de RCP e só pararam quando ela foi colocada na UTI móvel e removida ao hospital. O condutor do Ford Ka, teve ferimentos leves, a moça que estava ao lado, algumas fraturas. O pai das crianças, sofreu apenas arranhões. Como tudo aconteceu? Segundo o testemunho de moradores do conjunto ao lado da rodovia: o vectra, vinha para São Paulo, voltando da praia, estava em alta velocidade. O motorista perdeu o controle do veículo (em uma reta) atravessou o canteiro central, derrubando as telas de proteção, a traseira do vectra colidiu com a frente do Ford Ka, que vinha em sentido contrário. Removidas as vítimas, auxiliei a colocar os veículos nos guinchos, varri os detritos da pista, a rodoviária liberou o tráfego. No local, o evento acabou. Infelizmente, não acabou para àquelas famílias, para o pai que matou os filhos e machucou pessoas que nem conhecia. Mais do que isso, acidentes estão acontecendo todos os dias. Para quem leu até aqui, talvez ajude a pensar melhor, mas a maioria das pessoas não quer assumir a responsabilidade que tem, porque não quer ter responsabilidade nenhuma. Só quer aproveitar o feriadão. E o feriadão, acaba.



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